Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
Carlos Drummond de Andrade
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domingo, 2 de maio de 2010
Poema à Mãe
No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.
Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.
Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me? -
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;
Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;
Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...
Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.
Eugénio de Andrade
Eu sei que te traí, mãe.
Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.
Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me? -
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;
Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;
Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...
Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.
Eugénio de Andrade
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Parafrasear a Vida XVII

À Beleza
Não tens corpo, nem pátria, nem família,
Não te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.
És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.
És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.
És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.
És a beleza, enfim.
És o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço...
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço.
Miguel Torga, in 'Odes'
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
Para a minha Tó

Tinha tanta coisa para te dizer.
Salientar as tuas qualidades e mencionar os teus hábitos mais irritantes.
Mas isso não importa.
Cada pessoa é perfeita dentro da sua imperfeição.
TU não és excepção!
Só quando nos predispomos a descobrir alguém é que vemos que essa
pessoa não é tão banal como aparenta.
TU não és banal!
A histeriquice não passa de alegria desmedida.
A tagarelice incessante é sinal de cumplicidade.
A cantoria é uma forma de expressar os sentimentos.
O riso é forma de expelhar beleza da alma.
E o choro, a dor que vivemos no nosso mundo.
Cada pessoa é um poço de mistério (...sem fundo)
TU és misterio!
Todos somos diamantes em bruto
à espera que alguém venha e nos lapide.
TU és um diamante em bruto!
Por mais que digam que és um mero seixo da praia,
uma e outra vez,
Não os ouças!
Ergue a cabeça porque TU sabes
no fundo do coração
que és a mais preciosa das joias!
sábado, 2 de janeiro de 2010
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Dia de Natal
O Natal desperta o que cada pessoa tem de melhor. Natal é muito mais do que presentes debaixo de uma brilhante árvore de Natal. Natal significa familia, alegria e principalmente amor.
Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e ouvir em mavioso tom,
de abraçar toda a gente e oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros- coitadinhos- nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e ouvir em mavioso tom,
de abraçar toda a gente e oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros- coitadinhos- nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
António Gedeão in Máquina de Fogo
(adaptado)
Este poema reflecte sobre o consumismo do Natal e dos valores que se foram perdendo. Vale a pena ler tudo.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Parafrasear a Vida XVI
"Sentir tudo de todas as maneiras.Viver tudo de todos os lados.
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo."
"Sentir tudo de todas as maneiras.
Ter todas as opiniões.
Ser sincero contradizendo-se a cada minuto."
Álvaro de Campos (excertos)
Dois ao preço de um. Só porque eu estou bem disposta e, admitamos, gosto de Álvaro de Campos.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
O meu poema preferido de Alberto Caeiro!

O meu olhar é nítido como um girassol,
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e a esquerda
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei Ter o pasmo essencial que tem uma criança
Se ao nascer, reparasse que nasceras deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo...
Creio no mundo como um malmequer
Porque o vejo, mas não penso nele
Porque pensar é não compreender
O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.
Eu não tenho filosofia, tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama.
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência
E a única inocência é não pensar.
Alberto Caeiro
sábado, 17 de outubro de 2009
Eu gostava de ser mais como o Alberto Caeiro, a sério que gostava! Viver em simbiose com a Natureza, apreender a realidade só com o sentir e abandonar o pensar.
Deitar-me ao comprido na relva num dia de calor e saber o que é a felicidade. Seria uma vida tão mais simples, despreocupada e inocente. Mas o conhecimento não se coaduna com a inocência. O pensar traz preocupação é certo, mas é descoberta.
Caeiro captava o mundo pelo olhar, eu apreendo-o com a Ciência e, assim, cada um fica com a parte do mundo que mais precisa e ânseia.
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Fingimento Poético
"É na poesia ortónima que o Pessoa "restante", o que não cabe nos heterónimos laboriosamente inventados, se afirma e "normaliza": é então que ele "faz" de si e os seus poemas são "chaves" para compreeender o seu universo literário. " António Mega Ferreira
O meu plano espectacular para esta manhã é escrever um texto de 120 palavras sobre a teoria do fingimento poético em Pessoa ortónimo, com base neste comentário de António Mega Ferreira.
A poesia é um acto de fingimento. O resto é bla bla bla whiskas saquetas!!
Parafrasear a Vida XV
"O tempo é muito lento para os que esperam.
Muito rápido para os que têm medo.
Muito longo para os que lamentam.
Muito curto para os que festejam.
Mas, para os que amam, o tempo é eterno."
William Shakespeare
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Vontade
"Nunca a alheia vontade, inda que grata,
Cumpras por própria.
Manda no que fazes,
Nem de ti mesmo servo.
Ninguém te dá quem és.
Nada te mude.
Teu íntimo destino involuntário
Cumpre alto.
Sê teu filho."
Ricardo Reis; "Odes"
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
sábado, 12 de setembro de 2009
Parafrasear a Vida XII
"Alague o seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas."
Fernando Pessoa
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Pessoa
O último post é para dar um cheirinho para este. Já estão, mais ou menos, a ver o tema. Então é assim.
Eu gosto de poesia, gosto de poetas e de poemas. A poesia é muito diferente dos romances porque esta deixa o sujeito poético totalmente a nu. O que este escreve é o que o próprio sente, vê e ouve. São os seus sentimentos e vivencias que estão naqueles versos. É uma exposição tremenda escrever poesia.
Um dos poetas que mais curiosidade me desperta é Fernando Pessoa. O senhor era especial, diferente e muito complexo. Como nunca tinha lido nada dele, sem contar com aquele poemas mais conhecidos com os quais, incontornavelmente, nos cruzamos. Comprei um livro, uma colectânea das suas citações e poemas. Chama-se "Citações e Pensamentos de Fernando Pessoa" organizado por Paulo Neves da Silva.Uma mais valia para quem o quer conhecer mais a fundo, sem dúvida.
É por esta e por outras que podem contar com muitas citações de Pessoa no meu cantinho "Parafrasear a Vida" daqui para a frente.
Parafrasear a Vida XI
"Descobri que a leitura é uma forma servil de sonhar. Se tenho de sonhar, porque não sonhar os meus próprios sonhos?"
Fernando Pessoa, in "O Eu Próprio"
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sexta-feira, 21 de agosto de 2009
Parafrasear a Vida VIII
"A maior parte do tempo, porém, o que nós partilhávamos era o silêncio. E isso eu aprendi contigo, porque não sabia. Para mim, o silêncio era sinal de distância, de mal-estar, de desentendimento. Ao princípio, quando ficávamos calados muito tempo, eu sentia-me inquieta, desconfortável, e começava a falar só para afastar esse anjo mau que estava a passar entre nós.
Um dia tu disseste-me:
- Cláudia, não precisas de falar só por vamos calados. A coisa mais difícil e mais bonita de partilhar entre duas pessoas é o silêncio."
Miguel Sousa Tavares in "No teu deserto"
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poemas
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Surpresa!!!!
A Tó ofereceu-me, de longe, o melhor presente de aniversário de sempre.
Ela foi uma querida e deu-me uma moldura linda, com uma foto fantástica... Posto cá a devida moldura, quando tiver tempo para tirar uma foto!
Assim, este post é para ela, retribuindo todo o carinho que eu vi naquela prenda...

imagem gentilmente roubada daqui.
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quarta-feira, 1 de julho de 2009
Parafrasear a Vida VII

O Toque Humano
“É o toque humano que conta neste mundo
O toque da tua mão na minha
Que significa muito mais para o coração fragilizado
Que o abrigo, o pão ou o vinho,
Porque o abrigo vai-se quando a noite acaba
E o pão dura apenas um dia
Mas o toque de uma mão e o som da voz
Cantam para sempre na alma.”
Spencer Michael Free
“É o toque humano que conta neste mundo
O toque da tua mão na minha
Que significa muito mais para o coração fragilizado
Que o abrigo, o pão ou o vinho,
Porque o abrigo vai-se quando a noite acaba
E o pão dura apenas um dia
Mas o toque de uma mão e o som da voz
Cantam para sempre na alma.”
Spencer Michael Free
terça-feira, 30 de junho de 2009
Parafrasear a Vida VI
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